Revisão de Texto Literário: algumas considerações
Revisão de Texto literário:
algumas considerações
O texto literário pode ser
entendido como produto do trabalho estético, do anseio humano de comunicar
conteúdo através da linguagem verbal trabalhada formalmente, que incide
diretamente na sua própria estruturação linguística, campo de trabalho do
revisor. Assim, pode-se dizer que o trabalho técnico sobre o texto literário
não pode jamais incidir diretamente no conteúdo da obra de arte, ou seja, no
objeto estético, e todos os elementos da obra que necessariamente formarem tal
objeto devem ser preservados em si. Já o material da obra de arte pode ser
objeto de trabalho técnico do outro (no caso, o revisor), já que “o poeta não
cria no mundo da língua, ele apenas usa a língua” (BAKHTIN, 2010a, p.178).
Na revisão literária, o papel do
profissional consiste em compreender o contexto axiológico e criador não para
intervir nele, mas para perceber o escopo das possibilidades de uso do material
e da organização da forma arquitetônica. Porém, é de extrema importância para
que o trabalho técnico seja bem-sucedido que se compreenda qual a relação
estabelecida por esse material com o objeto estético, com as “relações
arquitetônicas extraverbais” (BAKHTIN, 2010b, p.51). Claro que não para
interferir na arquitetura da obra, mas para adquirir a capacidade de discernir
as possibilidades de uso do material proposto pelo objeto estético. A
capacidade de leitura do texto literário deve se desenvolver a ponto de
possibilitar a percepção do que, naquela obra, pertence ou não às suas
possibilidades linguísticas. Isso evita que não se considere “erro” o que for
uso dos recursos linguísticos pertinentes a essa criação.
Imagine, por exemplo, se o
revisor de Saramago (agora não o personagem da obra, claro, mas o profissional
que trabalhou em seu texto final) resolvesse pontuar os diálogos de História de
um cerco de Lisboa da forma tradicional, com travessões e troca de parágrafos?
O próprio autor português, aliás, não aceitava sequer que se adaptasse a
ortografia para o português brasileiro, fazendo questão de manter na edição
brasileira da obra palavras como “acto” (SARAMAGO, 1989, p.64), “terramoto”
(SARAMAGO, 1989, p.72) ou “connosco” (SARAMAGO, 1989, p.84).
As tarefas do revisor do texto
literário não incluem, portanto, a interferência em toda a forma da obra. A
forma está ligada de um lado ao conteúdo e de outro ao material. Por isso o
estudo da forma pode seguir dois caminhos, como referido anteriormente: “a partir
do interior do objeto estético puro, como forma arquitetônica, axiologicamente
voltada para o conteúdo” ou “a partir do interior do todo composicional e
material da obra: este é o estudo da técnica da forma” (BAKHTIN, 2010b, p.57).
Somente na relação que a forma guarda com o material que a atividade do revisor
pode se desenvolver, porque, para Bakhtin (2010a, p.178), “o desígnio artístico
puramente material é uma experiência técnica”. Assim, mesmo mudanças
composicionais podem ser sugeridas, desde que não interfiram no conteúdo, no
objeto estético, o que, em termos bakhtinianos, significa não interferir na
forma arquitetônica.
De que se
constitui a obra de arte? De palavras, orações, capítulos, talvez de páginas,
de papel? No ativo contexto axiológico e criador do artista, todos esses
elementos nem de longe [ocupam] o primeiro, mas o segundo lugar, não são eles
que determinam axiologicamente o contexto, mas são por eles determinados
(BAKHTIN, 2010a, p.179- 180).
A revisão, portanto, só pode se
debruçar sobre os elementos determinados pelo contexto axiológico pela visão de
mundo do autor, e não diretamente nessa visão de mundo. Um exemplo mais
concreto parta tentar esclarecer as proposições bakhtinianas nos é dado por
Umberto Eco. O autor italiano trabalha a noção de “fato cosmológico”, que
corresponderia a algo como “construir um mundo”, necessário, segundo ele, para
quem quer “contar”. A construção da ficção necessita, portanto, da criação
desse fato cosmológico. Veja-se o exemplo dado por Eco:
Para contar é
necessário primeiramente construir um mundo, o mais mobiliado possível, até os
últimos pormenores. Constrói-se um rio, duas margens, e na margem esquerda
coloca-se um pescador, e se esse pescador possui um temperamento agressivo e
uma folha penal pouco limpa, pronto: pode-se começar a escrever, traduzindo em
palavras o que não pode deixar de acontecer. Que faz um pescador? Pesca (daí
toda uma sequência mais ou menos inevitável de gestos). E depois o que
acontece? Ou há peixes que mordem a isca ou não há. Se há, o pescador os fisga
e vai pra casa todo contente. Fim da história. Se não há, como ele é
temperamental, talvez se irrite, talvez quebre a vara de pescar. Não é muita
coisa, mas já é um esboço. Mas existe um provérbio indiano que diz “senta-se à
beira do rio e espera, o cadáver de teu inimigo não tardará a passar”. E se,
levado pela correnteza, passasse um cadáver – já que esta possibilidade está
implícita na área intertextual do rio? Não se pode esquecer que o meu pescador
tem uma folha penal suja. Quererá correr o risco de meter-se na enrascada? Que
fará? Fugirá, fingindo não ver o cadáver? Sentir-se-á com rabode-palha, já que
o cadáver é do homem que odiava? Temperamental como é, ficará furioso por não
ter realizado ele próprio a sonhada vingança? Como se vê, bastou mobiliar com
pouca coisa nosso mundo e já se tem o início de uma história. Temos também o
início de um estilo, porque um pescador pescando deveria impor-me um ritmo
narrativo lento, fluvial, escandido de acordo com sua espera, que deveria ser
paciente, mas também de acordo com os sobressaltos de sua cólera impaciente. O
problema é construir o mundo, as palavras virão quase por si sós (1985,
p.21-22).
Note-se a relação do fato
cosmológico erguido e o ritmo narrativo. Por estar enformado, nesse caso, pelo
conteúdo, o ritmo narrativo faz parte do estilo artístico, não podendo ser
alterado pelo trabalho técnico do leitor crítico. Este deve se limitar, num
caso assim, a avaliar e, se for o caso, sugerir alterações que contribuam para
a expressividade dessa relação. Parece possível relacionar a noção de fato
cosmológico de Umberto Eco à de forma arquitetônica de Bakhtin. Ambas seriam um
tipo de produto da sedimentação de uma experiência (ou de um conteúdo, para
usar os termos de Bakhtin). Essa sedimentação ganha forma através do trabalho e
com a organização feitos pela língua. É nesse jeito de organizar a expressão do
fato cosmológico que o revisor pode interferir, não na experiência mobilizada
pelo autor, que é sua própria visão de mundo.
Perez, Marcelo Spalding; Boenavides, William Moreno. Os limites para Revisão do Texto Literário. In: os limites para a revisão do texto literário a partir dos conceitos de autoria e estilo de bakhtin. Bakhtiniana, São Paulo, 12 (1): 113-130, Jan./Abril 2017. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/bak/v12n1/2176-4573-bak-12-01-0113.pdf>.
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